![]() |
![]() |
JESUÍTAS |
Século XVIII Ó mes frères, je viens vous apporter mon Dieu, Je viens vous apporter ma tête! Chátiments — Victor Hugo Quando o vento da Fé soprava Europa, Como o tufão, que impele ao ar a tropa Das águias, que pousavam no alcantil; Do zimbório de Roma — a ventania O bando dos Apost’los sacudia Aos cerros do Brasil. Tempos idos! Extintos luzimentos! O pó da catequese aos quatro ventos Revoava nos céus... Floria após na Índia, ou na Tartária, No Mississipi, no Peru, na Arábia Uma palmeira — Deus! — O navio Maltês, do Lácio a vela, A lusa nau, as quinas de Castela, Do Holandês a galé Levavam sem saber ao mundo inteiro Os vândalos sublimes do cordeiro, Os átilas da fé. Onde ia aquela nau? — Ao Oriente. A outra? — Ao Pólo. A outra? — Ao Ocidente. Outra? — Ao Norte. Outra? — Ao Sul. E o que buscava? A foca além do pólo; O âmbar, o cravo do indiano solo, Mulheres em ’Stambul. Ouro — na Austrália; pedras — em Misora!... "Mentira!" respondia em voz canora O filho de Jesus... "Pescadores!... nós vamos no mar fundo "Pescar almas pra o Cristo em todo o mundo, "Com um anzol — a cruz —!" Homens de ferro! Mal na vaga fria Colombo ou Gama um trilho descobria Do mar nos escarcéus, Um padre atravessava os equadores, Dizendo: "Gênios!... sois os batedores Da matilha de Deus." Depois as solidões surpresas viam Esses homens inermes, que surgiam Pela primeira vez. E a onça recuando s’esgueirava Julgando o crucifixo... alguma clava Invencível talvez! O martírio, o deserto, o cardo, o espinho, A pedra, a serpe do sertão maninho, A fome, o frio, a dor, Os insetos, os rios, as lianas, Chuvas, miasmas, setas e savanas, Horror e mais horror... Nada turbava aquelas frontes calmas, Nada curvava aquelas grandes almas Voltadas pra amplidão... No entanto eles só tinham na jornada Por couraça — a sotaina esfarrapada... E uma cruz — por bordão. Um dia a taba do Tupi selvagem Tocava alarma... embaixo da folhagem Rangera estranho pé... O caboc’lo da rede ao chão saltava, A seta ervada o arco recurvava... Estrugia o boré. E o tacape brandindo, a tribo fera De um tigre ou de um jaguar ficava à espera Com gesto ameaçador... Surgia então no meio do terreiro O padre calmo, santo, sobranceiro, O Piaga do amor. Quantas vezes então sobre a fogueira, Aos estalos sombrios da madeira, Entre o fumo e a luz... A voz do mártir murmurava ungida "Irmãos! Eu vim trazer-vos — minha vida... Vim trazer-vos — Jesus!" Grandes homens! Apóstolos heróicos!... Eles diziam mais do que os estóicos: "Dor, — tu és um prazer! "Grelha, — és um leito! Brasa, — és uma gema! "Cravo, — és um cetro! Chama, — um diadema "Ó morte, — és o viver!" Outras vezes no eterno itinerário O sol, que vira um dia no Calvário Do Cristo a santa cruz, Enfiava de vir achar nos Andes A mesma cruz, abrindo os braços grandes Aos índios rubros, nus. Eram eles que o verbo de Messias Pregavam desde o vale às serranias, Do Pólo ao Equador... E o Niágara ia contar aos mares... E o Chimboraço arremessava aos ares O nome do Senhor!... São Paulo, 1868 |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |