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COMÉDIA DE COSTUMES ACADÊMICOS Música de Emílio do Lago ... |
COMÉDIA DE COSTUMES ACADÊMICOS Que noite fria! Na deserta rua Tremem de medo os lampiões sombrios. Densa garoa faz fumar a lua Ladram de tédio vinte cães vadios. Nini formosa! por que assim fugiste? Embalde o tempo à tua espera conto. Não vês, não vês?... Meu coração é triste Como um calouro quando leva ponto. A passos largos eu percorro a sala Fumo um cigarro, que filei na escola... Tudo no quarto de Nini me fala Embalde fumo... tudo aqui me amola. Diz-me o relógio cinicando a um canto "Onde está ela que não veio ainda?" Diz-me a poltrona "por que tardas tanto? Quero aquecer-te, rapariga linda." Em vão a luz da crepitante vela De Hugo clareia uma canção ardente; Tens um idílio — em tua fronte bela... Um ditirambo — no teu seio quente... Pego o compêndio... inspiração sublime Pra adormecer... inquietações tamanhas... Violei à noite o domicílio, ó crime! Onde dormia uma nação... de aranhas... Morrer de frio quando o peito é brasa... Quando a paixão no coração se aninha!?... Vós todos, todos, que dormis em casa, Dizei se há dor, que se compare à minha!... Nini! o horror deste sofrer pungente Só teu sorriso neste mundo acalma... Vem aquecer-me em teu olhar ardente... Nini! tu és o cache-nez dest’alma. Deus do Boêmio!... São da mesma raça As andorinhas e o meu anjo louro... Fogem de mim se a primavera passa Se já nos campos não há flores de ouro... E tu fugiste, pressentindo o inverno, Mensal inverno do viver boêmio... Sem te lembrar que por um riso terno Mesmo eu tomara a primavera a prêmio... No entanto ainda do Xerez fogoso Duas garrafas guardo ali... Que minas! Além de um lado o violão saudoso Guarda no seio inspirações divinas... Se tu viesses... de meus lábios tristes Rompera o canto... Que esperança inglória!... Ela esqueceu o que jurar-lhe vistes Ó Paulicéia, ó Ponte grande, ó Glória!... Batem!... Que vejo! Ei-la afinal comigo... Foram-se as trevas... fabricou-se a luz... Nini! pequei... dá-me exemplar castigo! Sejam teus braços... do martírio a cruz! São Paulo, junho de 1868 |
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